Comunidad Budista Sotozen

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A atitude da consciência

A atitude do espírito flui naturalmente de uma concentração profunda sobre a postura e a respiração.

Durante zazen, o córtex repousa e o fluxo consciente de pensamentos detém-se, enquanto o sangue aflui para as camadas mais profundas do cérebro. Melhor irrigado, o cérebro acorda de um semi-sono e a sua atividade dá a sensação de bem-estar, de calma e serenidade, próximas ao sono profundo, mas em plena vigília. O sistema nervoso relaxa-se, o cérebro 'primitivo' entra em atividade. É-se recetivo, está-se atento, no mais alto grau, através de todas as células do corpo. Pensa-se com o corpo, inconscientemente, sem usar energia.

Não se trata de querer deter os pensamentos –o qual seria ainda pior– mas deixá-los passar como nuvens no céu, como reflexos num espelho, sem se opor a eles, sem se apegar a eles. Desta forma, as sombras passam e desvanecem-se e, pouco a pouco, uma vez que as imagens do subconsciente surgiram e desapareceram, chega-se ao subconsciente profundo, sem pensamento, mais além de qualquer pensamento, hishiryo, verdadeira pureza.

Hishiryo é o inconsciente do Zen. Shiryo é o pensamento. Fu shiryo é o não-pensamento.

Hishiryo é o pensamento absoluto, mais além do pensamento e do não-pensamento. Mais além de dualidades, das oposições, dos contrários. Mais além de todos os problemas da consciência pessoal. É a nossa natureza original, ou natureza de Buda, ou inconsciente cósmico.

Quando o intelecto se esvazia e se torna sereno, aprazível, nada pode deter a corrente de vida profunda, intuitiva, ilimitada que surge do mais profundo do nosso ser e que é anterior a qualquer pensamento. Este é o fluxo eterno da atividade do todo.

«O espírito contém todo o cosmos.

A consciência é mais rápida que a velocidade da luz.»

Sentado, sem meta, pode compreender-se mushotoku e hishiryo, segredos da essência do Zen. Mas esta compreensão deve ser diferente da do sentido comum ou do intelecto. É uma perceção direta.

Mushotoku é a filosofia do não-proveito, do não desejo de adquirir. É o princípio essencial do Zen. Dar sem esperar receber nada em troca. Abandonar tudo sem medo de perder. Voltar o olhar para o interior. Da mesma forma que em toda obra de arte o artista deve saber dar-se inteiramente sem ocupar-se de atingir a glória, a beleza, a riqueza, para expressar-se numa obra bela, pura, autêntica, assim também o discípulo obterá a sabedoria se quer conhecer-se, superar-se, dar-se sem esperar atingir nenhum proveito pessoal.

Se abandonarem tudo, obterão tudo.

Hishiryo é a consciência cósmica, e não a consciência pessoal. Podemos experimentá-la durante zazen. Durante zazen pensamos nas nossas ansiedades, na nossa vida quotidiana, nos nossos amigos, nas nossas férias, em todos os fenómenos que provêm da nossa memória, mas, se nos concentrarmos profundamente na nossa postura, na respiração, podemos deter os pensamentos, podemos esquecer tudo e harmonizar-nos com o pensamento cósmico. O subconsciente surge assim à superfície, graças a este abandono. Os pensamentos fazem-se longos, alargam-se profundamente e atingem a consciência universal. Podemos chegar até ao fim desta consciência universal. Podemos chegar até ao fim desta consciência última, mas, para isso, não devemos utilizar os pensamentos da nossa auto-consciência. Esta é a arte do zazen.

O mestre Dôgen escreveu:

 

«Pensem sem pensar.

Como se pensa sem pensar?

Pensando desde o fundo do não-pensamento.

Esta é a dimensão cósmica, hishiryo».

Os sentidos da nossa consciência não podem imaginá-la. As categorias não podem defini-la. A palavra não pode explicá-la. Só a nossa experiência vivida.

Hishiryo é a harmonia das visões objetivas e subjetivas, a última consciência, mais além do espaço e do tempo. A consciência mais excelente, global, universal, mais além de todos os fenómenos, mais além do pensamento e do não-pensamento. Zazen é atingir a condição hishiryo.

O abandono do ego é satori.

O nada inclui o todo.

Uma mão aberta pode receber tudo.

Uma garrafa vazia pode ser enchida.

 

O céu puro e infinito não é perturbado pelo voo das nuvens brancas.

Texto extraído da obra “¿Qué es el Zen? Introducción práctica a la meditación Zen”, de Dokushô Villalba. Ediciones Miraguano, ISBN: 978-84-7813-286-4. Todos os direitos reservados