Comunidad Budista Sotozen

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A Vida em Luz Serena

“É na prática ordinária e vivida com a totalidade de um mesmo que se realiza verdadeiramente o Dharma e o verdadeiro espírito dos mestres. A maneira de fazer é o ponto essencial, o segredo do Zen. Se vocês se  contentarem com uma compreensão intelectual a vossa experiência na Via do Despertar será superficial e pouco eficaz. Mas se compreenderem através de uma prática regular e fiel das ações mínimas da vida quotidiana de cada dia, poderão compreender fundamente através de todo o corpo, através do espírito completo e poderão progredir naturalmente”.

Taisen Deshimaru Roshi

 

O mapa

Em Luz Serena estamos tratando de realizar uma boa maneira de viver. Uma maneira de viver, de fazer, de ser, que nos permita experimentar a Felicidade, a Paz e a Harmonia que cada um de nós desejamos do mais fundo do nosso coração.

Afortunadamente temos o exemplo e os ensinamentos que nos legaram os nossos antepassados na Via, os Budas, mestres e patriarcas da Tradição Zen. Também temos o exemplo e os ensinamentos de outros muitos homens sábios e mulheres sábias que viveram sobre esta terra antes que nós ou que ainda vivem nestes tempos.

Luz Serena é um espaço sagrado, um templo. Isto quer dizer que aqui tratamos de viver na plena consciência de que cada um dos nossos instantes é um instante sagrado. Cada pensamento, cada palavra, cada ação são sagradas. Sagrado quer dizer: plenamente iluminado pela consciência de ser.

O nosso Ser é sagrado. Quando nos apercebemos disto, instante atrás de instante, a nossa vida inteira e todas as nossas ações tornam-se sagradas.

Os Budas e Patriarcas Zen ensinaram-nos, e a nossa própria experiência assim o confirma, que todos os seres temos consciência do carácter sagrado da nossa existência, de uma ou doutra maneira, ainda que às vezes, sob o influxo de estados mentais obscuros, esqueçamos esta consciência.

As Regras de Luz Serena são a nossa maneira de viver, o nosso intuito de viver de acordo com a nossa verdadeira natureza original. Estas Regras são a pele, a carne, o sangue, os ossos e a medula dos antigos Budas e Bodisatvas, atualizadas neste instante preciso do tempo e neste lugar concreto do espaço.

Observa estas Regras da luz do teu coração. Não percas o tempo rebelando-te contra elas. Estas Regras no são destinadas a limitar a tua liberdade, mas a indicar-te o caminho da verdadeira Liberdade em que poderás voar sem empecilhos mais além da imagem ilusória que tens de ti próprio, do mundo e dos demais.

Para seguires estas Regras necessitas humildade, confiança e entrega. Não te preocupes. Não tens nada a perder e sim muito que ganhar.

O ponto de partida

A primeira Regra de Luz Serena é Ser Feliz, ou pelo menos reconhecer que aquilo de que estás à procura é a Felicidade. A tua própria Felicidade e a de aqueles que te rodeiam. Não vieste aqui para continuares a alimentar a tua inquietude, a tua desgraça, mas para descobrir a maneira de plantar boas sementes cujos frutos não sejam outros que a Felicidade, a Paz, a Harmonia e a Consciência Lúcida.

Tudo o que vem a seguir é em função deste ponto de partida.

A atitude básica

Para viver e praticar em Luz Serena necessitas uma aspiração honesta e uma forte determinação. A aspiração não é outra que a de alcançar o Despertar para o Bem de todos os seres viventes. Despertar não é outra coisa que "tomar consciência daquilo que realmente és e do que os demais realmente são, isto é, Budas, seres de Luz cuja motivação básica é a Bondade natural".

Forte determinação quer dizer não permitir que na tua mente aninhe nenhuma outra maneira de te perceberes a ti próprio nem aos demais.

A busca do proveito pessoal (reconhecimento egoico, enriquecimento individual, poder...) fica completamente descartada deste espaço.

Se sentires que isto concorda com aquilo que tens no teu próprio coração, podes dar o primeiro passo e entrar. Se não for assim, temos que reconhecer que este lugar não é, por enquanto, adequado para ti.

O Primeiro Passo: a tomada de refúgio nos Três Tesouros

Se tiveres a suficiente humildade para perceber a tua situação atual, poderás reconhecer que o teu desejo de vir a Luz Serena é, dalguma maneira, um pedido de ajuda. Estás buscando alguma coisa que sentes que necessitas. Essa coisa pode adotar muitas formas, mas basicamente o que buscas é reconciliação contigo próprio, paz interior, descanso da alma. Estás-te a buscar a ti próprio, estás a tentar descobrir quem ou que és realmente porque não sabes, não tens certeza da tua verdadeira identidade.

Os antigos Budas e Bodisatvas dizem-te que és Buda, que dizer, Luz e Bondade. Tem confiança nisto, ainda que ainda não o sintas totalmente. Durante o tempo que estiveres aqui toma refúgio no Buda que és. Tem confiança na tua própria Luz inata e na tua Bondade original. Não te identifiques com nenhum outro movimento da tua mente e a tua incerteza tornar-se-á certeza cristalina como o diamante.

Isto é tomar refúgio no Tesouro do Buda. Aceita humildemente este refúgio que a vida te está a oferecer e põe-te, desta maneira, ao abrigo da tua perceção ilusória.

Por outra parte, percebes claramente que chegaste a um Templo Budista Zen. A prática do Caminho do Buda é a medula deste espaço sagrado. Este Caminho está aqui para ti, para que a tu confiança se torne fé inquebrável, e a tua fé cristalize em experiência real.

Enquanto estejas aqui toma refúgio no Dharma, o Caminho que estás a pisar. Quer dizer, segue o Caminho tal como te está a ser transmitido. Este Caminho está mesmo aqui e agora, por baixo dos teus pés. Segue as pegadas que os nossos antepassados deixaram. Faz como eles fizeram e experimentarás aquilo que eles experimentaram.

E uma vez aqui, tens que reconhecer que não estás só. Sozinho, ninguém é ninguém. A nossa vida é interdependência. Vives graças aos demais seres viventes, da mesma maneira que os demais seres viventes vivem graças a ti. Somos juntos. O teu ser não pode ser separado do ser dos demais. Aqui todos juntos somos um só corpo. Permite-te ser nos demais e deixa que os demais sejamos em ti. Funde-te neste corpo único que vive, respira, pratica e descansa a uníssono.

Toma refúgio na Sangha, nesta comunidade de corações, e descansa, ainda que seja só por uns dias, da tua sensação de separabilidade.

Desta maneira te abrimos os nossos corações e damos-te as boas vindas ao Buda, ao Dharma e à Sangha.

As Três Regras Puras

Desde o momento em que atravesses o pórtico de entrada, tenhas ou não recebido os Dezasseis Preceitos de Bodisatva, deves gravar com fogo estas Três Regras Puras no teu coração:

1. Evitar o mal.

2. Fazer o Bem.

3. Ajudar a todos os seres viventes.

A tua mente concetual perguntará de imediato que é o mal, que é o Bem, que significa ajudar aos demais. A resposta nunca poderá proceder da tua mente. Dirige estas perguntas com todo o teu coração ao teu próprio coração e nele acharás as respostas.

A modo de orientação podes considerar que:

1. Evitar o mal significa não causar-te dano conscientemente nem causá-lo aos demais.

2. Fazer o Bem significa trabalhar conscientemente para a tua própria Felicidade e para a dos demais.

3. Ajudar a todos os seres viventes significa agir sempre impulsado pela Bondade natural do teu coração.

Esta é a maneira de fazer no espaço desta Luz Serena.

As Dez Regras Principais

Pedimos-te que durante o tempo que dure a tua estância aqui te comprometas solenemente a seguir estas Dez Regras:

1. Abstém-te de matar com o corpo, com a palavra ou com o pensamento.

2. Abstém-te de tomar o que não te foi dado.

3. Abstém-te de manter relações sexuais perturbadoras para ti e/ou para os demais membros da comunidade.

4. Abstém-te de mentir.

5. Abstém-te de obscurecer a tua consciência com álcool ou drogas.

6. Abstém-te de julgar-te a ti próprio e/ou aos demais.

7. Abstém-te de elogiar-te e de denegrir os demais.

8. Abstém-te de qualquer sentimento de posse.

9. Abstém-te de ofuscar-te com o lume da cólera.

10. Abstém-te de danar os Três Tesouros Buda, Dharma, Sangha.

Isto é Luz Serena: bodhimanda, lugar de iluminação.

Se sentires que este é o teu lugar, sê bem-vindo.

Abre bem os olhos, os ouvidos e o coração.

Tradicionalmente, nos templos Zen existem três lugares especialmente sagrados em que a prática do silêncio é obrigatória (san mokudo):

- o Sodo, ou dôjô, a sala em que se pratica a meditação zazen, onde se tomam os alimentos e onde tradicionalmente se dorme.

- a Cozinha, onde se preparam os alimentos para os Três Tesouros.

- as Casas de Banho (banheiros e latrinas) onde lavamos e purificamos o corpo e o espírito.

Tanto no interior como nos arredores destes três lugares, o silêncio e a concentração são obrigadas.

O mesmo comportamento cuidadoso e silencioso que se deve manter nestes três lugares deve ser continuado em qualquer outro lugar do templo.

Quando o corpo e o espírito estão perfeitamente unificados, todo lugar -da cimeira do Céu até as profundezas da Terra- tornam-se um bodhimanda verdadeiro e perfeito.

Em Luz Serena contamos com uma sala de meditação e cerimónias, uma albergaria-dormitório, uma zona para acampar, duches, lavabos, latrinas, uma cozinha, um alpendre, várias habitações e a casa do mestre. Todos estes lugares são bodhimanda, lugares sagrados em que tem de brilhar a luz da consciência.

Dissolução na Luz Serena

A prática da meditação zazen é a pedra de toque da nossa vida aqui. Existem muitas classes de meditações. Nós praticamos zazen. Para viver em Luz Serena necessitas conhecer exatamente a forma de praticar a meditação zazen. Amar a prática de zazen e aspirar a entregar o corpo e o espírito ao silêncio luminoso da quietude em zazen são condições imprescindíveis para formar parte desta comunidade.

O nome deste templo é outra maneira de chamar o zazen. Os antigos também chamavam zazen "iluminação silenciosa" (mokushô).

Wakô (Luz Serena) pode ser também traduzido como 'Paz Luminosa'. Esta Paz Luminosa não é outra que aquela que surge do mais fundo da nossa meditação em zazen, a manifestação da Clara Luz do nosso verdadeiro Ser.

Zazen é, por excelência, a expressão da Luz do nosso espírito e da Serenidade do nosso coração. Graças a zazen todas as obscuridades e as perturbações podem ser dissolvidas, de maneira que a paz Original da nossa natureza reine no nosso coração e irradie de ele para todos os seres viventes.

A assistência aos períodos de zazen é obrigatória para todos os membros da comunidade de residentes e para os visitantes temporais. Se nalgum momento se sentir indisposto para assistir ao dojo, por favor, comunica-o ao responsável geral e pede-lhe autorização para não participares em zazen.

Ser tempo, ser além do tempo

O nossos antepassados na Via do Despertar transmitiram-nos que a nossa autêntica natureza original é inata, eterna, além do tempo. Também nos mostraram que esta natureza original manifesta o seu poder na criação do mundo fenomenal, na criação do tempo e do espaço. O nosso verdadeiro ser participa tanto do tempo como da eternidade.

A vida diária em Luz Serena tem lugar no tempo, fluindo mais além do tempo. Queremos experimentar a eternidade. Para isso nada há de melhor que penetrar profundamente na consciência do tempo até encontrar a sua verdadeira natureza, a sua substância mesma. Aqui usamos o tempo até extrair a sua substância.

Tempo quer dizer ritmo, compasso. A vida em Luz Serena está acompassada por sons específicos. Estes sons ajudam-nos a viver atentos à consciência do tempo, e ao mesmo tempo impulsionam-nos a saltar para o intemporal.

Shinrei, é a sineta da manhã que nos acorda do sonho noturno.

Moppan, é o madeiro que nos chama à sala de meditação.

Umban, é o metal que nos anuncia o tempo das comidas.

Inkin, a sineta que anuncia a chegada do mestre e os seus movimentos.

Keizu, o grande sino da cerimónia.

Mokugyo, o tambor para levar o ritmo dos sutras.

Taiko, o grande tambor que nos anuncia a hora ou o momento do começo e do fim do trabalho.

Kaishaku, as claquetes, marcam o ritmo durante a estrofe das comidas.

Kaichin são as claquetes que nos anunciam o fim da jornada e a extinção de luzes e vozes.

Não devemos ver estes instrumentos na sua simples forma material. Em realidade são o verdadeiro corpo e o verdadeiro espírito dos Budas e Patriarcas e os seus sons devem ser apreendidos como o verdadeiro ensinamento mais além das palavras.

Fluindo na quietude da eternidade: os horários.

A eternidade é 'aqui e agora'. 'Aqui e agora' após 'aqui e agora'. Cada 'aqui e agora' é diferente. Cada momento é único. Perder o instante presente é perder o tempo, é perder a eternidade.

Os horários de uma jornada normal em Luz Serena seguem este ritmo básico:

06:30 Acordar

07:00 Zazen

08:00 Cerimónia da manhã

09:00 Pequeno-almoço

10:00 Samu (trabalho manual)

13:30 Asseio pessoal

14:00 Almoço

15:00 Descanso, tempo pessoal

16:00 Samu

18:00 Estudo

19:30 Zazen

21:00 Jantar

23:00 Descanso

Estes horários mudam segundo as estações e as necessidades do templo. Assim, por exemplo, em períodos de sesshin, aumenta o tempo dedicado a zazen e diminui o dedicado ao trabalho, ou em períodos de trabalhos importantes o tempo dedicado a este aumenta.

Os horários indicam a atividade correspondente a cada momento. O princípio é bem simples: quando se come, come-se; quando se trabalha, trabalha-se; quando se faz zazen, faz-se zazen... É particularmente importante respeitar os horários do templo. É preciso ser pontual no zazen, nas refeições, no trabalho, bem como respeitar escrupulosamente os momentos destinados ao descanso e utilizar convenientemente os intervalos reservados ao banho, ao asseio do próprio corpo.

Praticando desta maneira, cada uma das nossas ações torna-se a expressão do despertar do Buda e realizam-se exatamente como manifestação da prática da Via.

Somos interdependentes

Praticar todos juntos é um dos aspetos essenciais no caminho do Zen, na vida deste templo e nas sesshin. Juntos seguimos a prática diária de sentar-nos em zazen, trabalhar, assear-nos, descansar... Não existe nenhum Dharma exterior a aquilo que fazemos, nem exterior aos objetos nem aos irmãos no caminho. Por isso é importante que te harmonizes com os demais em cada ação. Atuar em harmonia, ao uníssono, é a ação do corpo dos Budas e Patriarcas, é uma ação pura do corpo mais além das ilusões e das desilusões. Esta Ação será então Prática Absoluta e Despertar Espontâneo. A busca da iluminação tornar-se-á então desnecessária, já que cada ação se torna iluminação.

A prática conjunta expressa a fé e o respeito para os Três Tesouros: Buda, Dharma e Sangha. O Buda é evidentemente o Buda Sakiamuni, fundador histórico do Budismo, mas também a tua verdadeira natureza original; o Dharma é o seu ensinamento, o caminho que escolheste seguir; a Sangha é a comunidade harmoniosa das pessoas unidas na sua fidelidade ao Buda e ao Dharma. No Dharma do Buda, o Tesouro da Sangha é o mas prezado, já que necessariamente implica os outros dois Tesouros.

A nossa vida é relação. Nada somos sem as nossas relações. Neste espaço da Luz Serena devemos focar adequadamente a mente e o coração com o fim de desenvolver relações harmoniosas com nós próprios, com os quatro elementos da vida fenomenal, com os objetos que nos rodeiam, com os demais praticantes, com os responsáveis e com o mestre espiritual do templo.

A nossa relação com a Terra

A Terra suporta-nos. É a base material da nossa vida. É a nossa Mãe. Podemos caminhar neste mundo graças à Terra, graças ao elemento terra. O elemento terra está presente no nosso corpo, na pele, na carne, nos ossos... Em Luz Serena tratamos de respeitar o nosso corpo e o corpo da Terra. Não atires beatas, nem papéis, nem lixo sobre o corpo da nossa Mãe. Trata de respeitar as plantas, as pedras, as árvores. Que cada um dos teus passos seja uma oração de gratidão para este ser que a cada instante está alimentando a tua vida.

A nossa relação com a Água

A Água é Fonte de Vida. É, como a Terra, um elemento, um ser vivo, muito sagrado. Observa a tua relação com a Água, tanto com a água externa como com a água interna. Usa com moderação, com gratidão e com respeito o dom que a Água te oferece, ora no chuveiro, nos lavabos, regando, bebendo, ou nas sanitas. O teu próprio corpo é Água num 80%. Estás flutuando num imenso rio de energia vital. Deixa-te fluir e deixa que a Água limpe em ti tudo o que não necessitas.

A nossa relação com o Ar

O Ar é o Alento da Vida. Este Alento está por todas a parte, dentro e fora de ti. Inspira e toma todo o Ar que necessitas. Espira e deixa partir tudo o que não necessitas. A respiração limpa o corpo emocional, mental e espiritual da mesma maneira que a água limpa o corpo material. Goza da tua respiração. Não percas de vista o teu ritmo respiratório.

A nossa relação com o Lume

O Lume é o Calor da Vida. O teu próprio coração é o Altar onde a Vida acendeu a chama sagrada do Amor. A Vida é Amor. O Amor é a substância mesma da Vida. Responsabiliza-te de manter bem aceso e cuidado o Lume do teu Coração. Nem demasiado apagado nem demasiado enaltecido.

A cólera, a ira, os ciumes, as invejas, o ressentimento, a agressividade podem queimar e devastar todas a tuas relações quando o seu lume prende e estende-se sem nenhum controlo.

A tristeza, a depressão, a melancolia, a falta de auto-estima estão a indicar-te que o teu lume interno está amortecido. Não te condenes a esse inferno frio!

Cuida o teu lume interno e mantém-te muito vigilante a respeito do lume externo. Estamos em pleno bosque, num clima muito seco no verão. Se fores fumador, utiliza só las zonas destinadas para os fumadores. Não fumes pelos caminhos, nem no bosque. Tem cuidado com as velas acesas e com todo o tipo de lume que possa pôr em perigo a vida animal e vegetal que nos rodeia.

Eu sou tu, tu és eu

Tu e eu e todos nós somos aquilo que somos porque estamos juntos. A nossa relação é importante. Não faças, nem digas nem penses nada que possa danar-me, que possa danar-te. A minha dor é a tua dor. A tua felicidade é a minha felicidade. Oferece aos demais a tua felicidade, a tu alegria, a tua compaixão, o teu apoio e receberás tudo isto multiplicado por mil. Aquilo que dês será o que recebas. Aquilo que ponhas será o que leves. Te que vieste aqui à procura da tua própria felicidade, cuida de não semear as sementes da tua desgraça.

A relação com os responsáveis

Os praticantes mais antigos que desempenham alguma responsabilidade no templo estão dando as suas vidas e a sua energia vital para que este lugar seja a Terra Pura do Buda que todos queremos que seja. São dignos de respeito. Na medida da tuas possibilidades deverias apoiar a sua tarefa e ajudar-lhes a desempenhá-la eficazmente. A rebeldia fica descartada neste lugar, bem como o abuso de poder e da confiança. Todos seguimos uma via de serviço. Estamos aqui para servirmos uns aos outros, cada um na posição dhármica que corresponde à sua posição kármica. Todos somos valiosos e todos devemos respeitar a responsabilidade e a missão que cada um de nós temos encomendada.

Dirige-te a estes praticantes antigos para dissolver a tuas dúvidas, para pedir instruções, para buscar apoio e aceita as indicações que te dão a respeito de como viver e praticar adequadamente neste lugar.

A relação com o mestre espiritual

O mestre espiritual é o Quarto Tesouro do Buda-Dharma. Sem o mestre espiritual, nem o Buda nem o Dharma nem a Sangha seriam possíveis. é portanto um Tesouro que deve ser respeitado e apreciado como tal.

No Buda-Dharma, cada caminhante é responsável do seu próprio progresso espiritual. Não podes delegar esta responsabilidade no mestre. O mestre é um guia, um amigo de bem. Só tu podes percorrer o caminho que tens traçado ante ti.

Não sobrestimes a função do mestre espiritual. Também não a subestimes. Descobre o seu verdadeiro valor e importância e usa corretamente este Tesouro que o Buda te entrega.

O mestre espiritual é o coração vivo desta comunidade e como tal deve ser protegido das projeções mentais surgidas da tua mente em relação ao teu percurso pessoal no passado.

Abre os olhos e vê bem: o presente é o presente. Isto é isto.

O ensinamento do Zen é transmitida de coração a coração, de mestre a discípulo, de ser a ser. Procura cultivar um coração recetivo, de forma que a tua mente concetual não impeça esta transmissão sem palavras.

Se precisares entrar em contacto direto com o mestre, expressa-o claramente e solícita uma entrevista privada ao seu assistente. Se chamares corretamente à sua porta não duvides que te será aberta de par em par.

Cada dia é um bom dia

O que vem a seguir é uma tradução livre e adaptada a Luz Serena da "La Regra de uma Jornada" (Juni hôgo) do mestre Zen Daichi (século XIV).

Todo aquele que entra em Luz Serena deve abandonar o mundo vulgar e entrar no mundo dos Budas. Deve viver exatamente seguindo a inspiração dos Budas e mestres dos tempos passados. Ninguém deveria pensar em si próprio, na sua própria pessoa. Agora vou descrever como viviam estes Budas e mestres do passado e as Regras que seguiram sem pensar na honra, no dinheiro nem nas aparentes alegrias materiais da vida.

O despertar (Shinrei)

De manhã é preciso acordar rapidamente ao primeiro sinal da sineta do despertar. Não fiques apegado à cama. Isto é uma falta de consideração para os teus companheiros. Recita a estrofe de despertar. Ordena a tua cama e veste-te guardando um silêncio absoluto.

Dirige-te para a casa de banho para te lavar a cara, os dentes, as mãos, os olhos e as orelhas. Espera pacientemente a tua vez se for necessário.

Segundo os ensinamentos do Buda, deves lavar a cara, os olhos, o nariz, as orelhas e a boca de maneira que todas as tuas consciências sensoriais fiquem completamente purificadas. Cuida os teus gestos e não mal-gastes água. Procura ser delicado e não salpiques os teus companheiros nem faças ruídos estentóreos

Deixa a bacia limpa bem como o lugar em que te tenhas lavado num ato de amor desinteressado.

Lavar a cara antes do amanhecer é uma prática excelente no caminho do budista.

Esta é a primeira ação da jornada realizada por um Buda.

O zazen do amanhecer (kyoten zazen)

Em silêncio, dirige-te rapidamente à sala de meditação para o zazen do amanhecer. Não vistas o Kesa nem o Rakuso. Entra no dojo mantendo-os diante de ti. Inclina-te ao entrares e cada vez que passes por diante do Buda ou dalgum praticante antigo. Deves entrar no dojo ao segundo golpe do madeiro e toma imediatamente a postura de zazen. Todos os praticantes devem estar imóveis quando entra o mestre. Ninguém pode entrar depois dele.

Durante zazen está estritamente proibido fechar os olhos. Se fechares os olhos podes adormecer. Procura manter constantemente os olhos abertos, desta maneira a brisa da manhã vai acordar-te facilmente. Deves ter sempre em mente que o tempo passa como uma flecha e que ainda estás longe de ter compreendido a Via.

O verdadeiro zazen do Buda é somente zazen (shikantaza). Isto quer dizer sentar-se de maneira justa. Qual é essa maneira justa? Senta-te com as pernas cruzadas, com a coluna vertebral reta. Não trates de dirigir o teu pensamento a nada, nem sequer o Budismo nem a iluminação. Se cultivares esta atitude, o teu espírito coincidirá com o do verdadeiro espírito do Buda. Não necessitas pensar na vida nem na morte, nem no karma nem no samsara. Durante zazen tens a oportunidade de fazer calar o teu karma e ser exatamente igual que Buda.

No fim deste zazen recita a estrofe do Kesa. A seguir veste-o e prepara-te para a cerimónia da manhã.

A cerimónia da manhã (choka fugin)

Uma vez que chegaste ao lugar que te corresponde na cerimónia, saúda em gasshô em direção ao Buda e em sasshû em direção ao centro da sala, quer dizer, para os teus companheiros da frente. Mantém em todo o momento uma atitude de respeito e concentração. Ordena os teus hábitos ou as tuas roupas e, quando chegue o momento, senta-te em posição de seiza, de maneira digna e elegante.

Durante as recitações de sutras, o livro é mantido alto e vertical diante dos olhos. Não penses noutra coisa que não seja a recitação de sutras. Esta é uma excelente oportunidade para dissolver o teu próprio karma e elevar-te para o estado de Buda.

Harmoniza a tua voz com a dos demais. O ritmo da recitação é marcado pelo responsável do mokugyô e o tom pelo Ino, o responsável da entoação. Em ambos casos é necessário que sigas as suas diretrizes. Depois da cerimónia, podes sair da sala para um breve descanso. Neste momento há que cuidar igualmente para não dispersar a mente com conversas ociosas ou inúteis. Aproveita este tempo par te ocupar de todos esses pequenos detalhes que não devem ser remetidos para mais tarde.

O pequeno-almoço (cho shuku gyô hatsu)

O metal da cozinha chama todos os participantes para os primeiros alimentos do dia.

Quando estiveres a comer os alimentos, esquece todo o demais. Não penses em zazen, nem nos sutras, nem no passado nem no futuro. Concentra-te completamente no ato de comer. Unifica o teu corpo e o teu espírito neste ato. Agora podes atingir o Despertar e aceder ao nível espiritual dos Budas e mestres do passado, porque o ato de comer em si próprio é o Despertar.

Ingere os alimentos com consciência e com gratidão. Muitos seres entregaram a sua vida para que tu possas continuar a viver. Oferece também a tua própria vida e os frutos da tua prática com o fim de que todos os seres participem contigo do teu Despertar.

Trabalho corporal (samu)

Depois do pequeno-almoço, o som do tambor chama-te para o trabalho corporal. Muda de roupa rapidamente e vai para a tarefa que te foi dada.

Durante o trabalho corporal tens ocasião de manifestar o espírito do Buda: o corpo move-se livremente em todas as direções e abarca todo o tempo passado, presente e futuro.

Ninguém pode descansar enquanto os demais trabalham, salvo os que estejam doentes. O contrário seria uma falta de consideração pelos demais.

Cuida a tua relação com o espaço físico e com os objetos que o povoam. Desenvolve a tua atenção sem fissuras e vê nos úteis de trabalho (pás, ancinhos, carretas, frigideiras, computadores, etc.) a expressão da mente do Buda que abrange tudo.

Sé ordenado e atento na sua maneira de trabalhar. Cuida a tua respiração e as tuas posturas corporais. Não te entregues a conversas inúteis. Não utilizes este tempo para seduzir os outros, para demonstrar conhecimentos ou para te deixares divagar em conversas ociosas. Este instante presente é o único que tens, o único em que és.

Experimenta o prazer de te entregares a um fazer correto. Estás a trabalhar para a tua própria felicidade, não esqueças. Não esqueças gerar felicidade no trabalho e, ao mesmo tempo, busca a eficiência, ou seja: máximos resultados com mínimos gasto de energia e tempo. Só tu podes fazer o que estás a fazer. Ninguém pode fazê-lo em teu lugar.

Asseio pessoal (senmen)

Depois do trabalho corporal, depois que o tambor indicou o fim do período dedicado ao trabalho, podes dirigir-te à zona de asseio para lavar inteiramente o teu corpo. Cuida o silêncio. Purificar o corpo é uma tarefa bem sacra e essencial. Não se trata só de que troques a sujeira de lugar, mas de que transformes qualquer noção de impureza em experiência vivida e direta da Pureza Original do Ser. Trata-se de um rito de purificação, de transmutação. O silêncio é fundamental. Respeita o silêncio dos demais. Ouve como a água flui para o teu corpo, pelo teu corpo até ao corpo da Mãe Terra. Envia com esta água 'suja' todas as tuas bênçãos para esta terra que sempre está disposta a acolher o que tu lhe mandas. Observa o seu exemplo.

Se os chuveiros estiverem ocupados, espera pacientemente o teu turno, em silêncio, considerando a vida a sua atividade como um sonho, como um crepúsculo que se apaga lentamente.

Cuido o silêncio e a delicadeza do teu comportamento. Não molhes os outros companheiros por descuido. Não mal-gastes a água. Não confundas os sons com ruídos. Permanece atento ao som da água que flui desde o infinito para ti e de ti para o infinito.

Zazen da meia manhã (soshin zazen) ou ensinamentos

Depois do asseio, veste outra vez o hábitos e volta para a sala de meditação para sentar-te de novo em zazen ou para receber ensinamentos ou instruções práticas.

Antes de acabar a terceira série do moppan já deves estar no teu lugar de zazen.

Durante este tempo não penses no Buda, nem nas boas ou más condições do teu karma, nem nada que não seja zazen. Abandona corpo e espírito. Entrega-o ao Poder que to cedeu temporalmente. Não discrimines o bem nem o mal. Não emitas nenhum juízo a propósito de nada. O zazen praticado com esta atitude é iluminação. E tu és Buda, mais além de qualquer noção que possas gerar sobre o que é ou não é Buda, ou o que é ou não és tu. Esta é a prática mais elevada.

Se estiveres a receber ensinamentos, presta atenção com a totalidade de ti próprio. Manifesta a tua gratidão pelo tesouro que estás a receber, não obrigando ao mestre ou instrutor a repetir as suas explicações.

Sê como uma tigela vazia capaz de receber tudo, como um recipiente sem limites capaz de abarcar o ensinamento ilimitado dos nossos ancestrais.

A comida do meio-dia (gozai)

De novo, o umban indica-te o momento da comida do meio-dia. Deixa o que estiveres a fazer e vai para o comedor, sem demorar-te e em silêncio.

A atitude de espírito durante a comida do meio-dia é a mesma que durante o pequeno-almoço.

Não discrimines os alimentos. Não os percebas em termos de ‘apetitosos’ ou ‘desagradáveis’. Pede a quantidade exata que necessitas e tomo o que te é dado, sem deixar nem sequer a menor partícula de alimento nas tuas tigelas. Usa as tigelas do Buda com respeito e atenção. Estás a usar a tua própria vida, a dos teus antepassados e a dos teus descendentes.

O descanso (yasumi)

Depois da comida do meio-dia e até ao zazen de meia tarde, podes descansar um pouco, o bem ter um tempo para o estudo, para passear ou para atender os teus assuntos pessoais.

Neste tempo conserva o silêncio. Si estiveres descansando não penses noutra coisa que não seja descansar. Concentra-te no descanso ou no estudo, sem deixar que a tua menta divague de cá para lá. Não disperses a tua energia. Descansar é também praticar o Dharma. Não estás a descansar da prática do Dharma. Em realidade, faças o que fizeres, nunca está fora do Dharma. Nunca está dispensado de conservar a atitude justa perante a tua própria vida.

Durante o descanso, igual que me qualquer outro momento, gera pensamentos de benevolência para os teus companheiros de caminho, para todos os seres viventes, para ti mesmo. Que o teu  coração more sempre em paz. Não permitas que pensamentos de animadversão ou rechaço aninhem na tua mente. Envia pensamentos de amor e de salvação aos doentes, aos fracos, aos presos, aos anciãos, aos moribundos. Olha todos esses seres como se fossem os teus próprio filhos.

O Buda Sayamuni disse que quando os bodisatvas praticam juntos devem ver-se e considerar-se como se vissem e observassem o próprio Buda. Tanto na linguagem como no comportamento devemos sempre reconhecer-nos mutuamente como Budas e Bodisatvas e agir em consequência.

Se tiveres que falara, fá-lo suavemente. Que as tuas palavras sejam doces, esclarecedoras e compassivas. Não uses a linguagem como arma de ataque.

Sempre e em qualquer circunstância tem presente a tau própria morte. Não sabes quando nem como vai acontecer. Pode ser agora mesmo, enquanto estás a dormir, enquanto trabalhas. Observa a tua vida da perspetiva da tua própria extinção.

Sempre e em qualquer circunstância age como um digno discípulo do Buda, quer dizer, com delicadeza e atenção.

Durante o descanso, bem como em qualquer outro momento, evita perturbar os demais. Tem em conta que a influência recíproca entre tu mesmo e os outros é completa e real. Evita, por exemplo, tomar banho enquanto os outros dormem, ou perturbar o seu descanso bruscamente...

Se encontrares algum monge ou praticante antigo que vista kesa pelos caminhos ou os corredores, une as palmas das mãos e saúda respeitosamente. Evita caminhar pelo centro dos caminhos ou corredores. Fá-lo sempre pela direita. Assim evitarás choques desagradáveis.

Não chames ou demais em voz alta, nem a gritar, nem a correr. Os nossos atos marcam o ritmo e a qualidade do tempo. Não te precipites. Conserva sempre a calma e o autocontrole natural.

Abandona o mundo vulgar e submerge plenamente na experiência que aqui está a ter.

Se não puderes assistir o zazen, o trabalho, ou alguma outra atividade quotidiana, se te sentires indisposto ou doente, informa o responsável geral. Ele vai ocupar-se de te seja dado o cuidado que necessitas.

Dirigir-se oportunamente aos responsáveis do mosteiro cada vez que seja necessário é uma boa maneira de expressar o respeito para a prática da comunidade e a harmonia de todos os seus membros

Zazen da tarde (hoji zazen)

Depois do descanso de novo entramos na sala de meditação para o zazen da tarde. A atitude deve ser a mesma que a descrita anteriormente.

Trabalho manual (samu)

Depois do zazen da tarde e segundo as circunstâncias do mosteiro há um período de trabalho. Não penses agora em zazen nem no descanso. Zazen não é diferente do trabalho corporal, o trabalho corporal não é diferente de zazen. Em realidade, o espelho da consciência permanece sendo o que é tanto em zazen como no trabalho. Nele não se entra nem se sai. Não se muda de uma atividade a outra. O corpo move-se mas a Mente permanece imóvel, idêntica sempre a si mesma.

No fim do trabalho corporal, ordena com cuidado as ferramentas, os baldes, as vassouras. Não os esqueças em qualquer lugar. Recolhe e ordena convenientemente o lugar onde estiveste a trabalhar. Cada um destes atos é a manifestação da Via

Ensinamentos sobre o Dharma (teisho)

No fim do zazen da tarde ou do trabalho, o Mestre do mosteiro o alguém em seu lugar pode lecionar um conferência sobre o Dharma. Dirige-te em silêncio a lugar indicado e presta atenção aos ensinamentos que se dão em cada ocasião.

Considera que é muito difícil nascer com forma humana, muito difícil ter a oportunidade de encontrar o Dharma do Buda, muito difícil encontrar um Mestre espiritual. Tu tens todas estas oportunidades. Não a mal-gastes.

Também é possível que este momento seja dedicado à prática ou à aprendizagem dalgum aspeto do Buda-Dharma. Mantém-te vigilante, recetivo e em boa disposição.

O jantar (yaku sekikittô)

No anoitecer, antes de entrar de novo na sala de meditação, costumamos comer algum alimento leve. Yaku seki kittô, em japonês, significa ‘pedra medicinal’. Consideramos o jantar como um remédio adequado para curar a ansiedade, a avidez da mente e para manter a saúde do corpo.

Toma os teu alimentos com gratidão e consciência.

Último zazen da jornada (y aza zazen)

Depois do jantar e após um tempo prudencial, voltamos para a sala de meditação para nos sentarmos em zazen por última vez no dia de hoje.

As mil ações foram consumadas. Nada resta por fazer. Podes sentar-te e morar em paz no silêncio da noite. Observa as flutuações da tua própria mente e deixa que se acalmem como ondas que se esgotam exaustas na praia da tua imobilidade. Funde-te na Clara Luz Imóvel que permanece mais além dessas flutuações.

No fim do zazen, o Ino recita:

«Ovi, praticantes do Dharma:

a Vida e a Morte é o Assunto Essencial.

O tempo passa rápido como uma seta.

A vós, que buscais a Via,

humildemente digo: tomai consciência do instante presente”.

Descanso noturno (kaichin)

E assim, tomando consciência da grandiosidade e da fugacidade do instante presente, chega a extinção de luzes e o momento do descanso noturno.

Conserva no teu coração a consciência da impermanência. A tua vida também vai extinguir-se da mesma maneira que se extingue o presente. Neste momento, quando soam os claquetes da extinção, todas as portas e as luzes se apagam. Dirige-te ao teu quarto ou ao dormitório em silêncio, sem dispersar-te em conversas fúteis, guardando em ti um espírito harmonioso, fraternal, compassivo.

Durante o sonho toma a postura que usava o Buda para dormir: o corpo esticado sobre o lado direito, a mão esquerda sobre a coxa esquerda, a mão direita por baixo da face direita, os dedos colados. As pernas estão juntas, o pé esquerdo permanece um pouco posterior.

Neste momento, não penses no Budismo, nem no zazen, nem nas dez mil impregnações da jornada que podem estar ainda reverberando na tua mente. Dirige um pensamento de benevolência para os teus companheiros de caminho, para os responsáveis do mosteiro, para o mestre, para os teus pais, para os teus seres queridos, para todos os seres viventes. Pede a todos os Budas e Bodisatvas que te acolham e te protejam no teu sonho noturno e fecha os olhos em paz, sem medo à morte.

Um antigo mestre disse:

“Quando se praticou o Dharma durante o dia,

pode-se morrer em paz ao anoitecer”.

O Buda Sakyamuni ensinou:

“Aqueles que estão atentos ao instante presente não morrerão nunca.

Aqueles que não prestam atenção ao instante presente já estão como mortos”.

E outra vez o despertar

Quando chega a hora de acordar começa uma nova jornada de prática na Via da Emancipação tal e como a seguiram os Budas os grandes mestres do tempo passado.

Uma jornada vivida assim é um exemplo a seguir durante dez, vinte, trinta anos, durante toda uma vida.

É um modelo de vida muito simples em que o nosso corpo e o nosso espírito se tornam parecidos ao dos Budas e seres iluminados da transmissão.

Vivendo assim podemos dissolver o nosso karma infernal. Podemos recompensar os nossos pais por todos os seus esforços e dedicações. Podemos fazer que a dor e o sofrimento do mundo se transformem na Paz Eternado Nirvana.

As Regras do mosteiro Luz Serena

1. A prática e a vida neste espaço sagrado só está permitida àqueles que tenham uma aspiração honesta de viver a plena luz da Consciência e uma forte determinação de fazê-lo, sejam quais forem as dificuldades e os obstáculos que possa encontrar.

 2. Ninguém pode entrar aqui buscando proveito pessoal, honra, fama, poder nem um reconhecimento egocêntrico.

3. Ninguém pode entrar aqui se a sua aspiração não for atingir o Pleno Despertar para o Bem de todos os seres viventes.

4. Se sentires que a tua entrada aqui foi um erro deves partir imediatamente. Se buscas a Via, o desejo de comodidade e de proveito pessoal perde toda a sua importância.

5. Aqui buscamos uma Via de Harmonia com os demais. Queremos misturar-nos como o leite e o mel, e todos junto tratamos de abrir o olhos à Suprema Sabedoria.

6. Se praticares corretamente segunda o ensinamento que te é transmitido, a tua posição inicial de ‘principiante’ tornar-se-á com o tempo na de ‘Mestre’, ‘Buda’ ou ‘Bodisatva’.

7. Aqui podes encontrar amigos espirituais difíceis de encontrar ordinariamente. Aqui podes fazer coisas difíceis de fazer ordinariamente.

8. Tenta cultivar sempre um propósito unificado na tua ação. Sê como uma nuvem viageira (leve) e como a água que corre (fluída).

9. Presa atenção às tuas palavras, as tuas ações e os teus pensamentos.

10. Que o teu objetivo seja sempre a iluminação para o Bem de todos os seres.

11. Não saias inutilmente do mosteiro e não o faças sem a autorização do responsável geral.

12. Cultiva discretamente a tua solidão

13 Aqui e agora é o melhor momento para salvar a tua cabeça do lume, portanto não te preocupes com as coisas vãs do mundo. A nossa vida é transitória e é impossível dizer quando vai acabar. Não percas tempo com leituras ociosas, persegue antes a Verdade do Buda através de uma prática exata.

14. Mantém continuamente informado o responsável geral deste mosteiro dos teus problemas e dificuldades.

15. Não critiques nem fales mal dos demais. Oculta antes os seus erros mas não os imites. Cultiva a tua própria integridade. Sê severo contigo mesmo e benevolente com os demais.

16. Não translades os objeto ou bens comunais ao teu quarto, por pouco importantes que forem. Tem a delicadeza de informar o responsável geral das tuas ações e iniciativas.

17. Tanto no interior como nos arredores da sala de meditação evita falar em voz alta ou criar grupos de paleio.

18.  Na sala de meditação não poder introduzir anéis, nem brincos, nem pulseiras, nem colares, nem relógios, nem nenhum género de enfeites. Não entres nem saias com os braços ao longo do corpo.

19. Não recites sutras se não for o momento apropriado.

20. Não faças ruídos estranhos com o nariz nem com a boca. Tem sempre presente que o tempo é muito breve.

21. Utiliza roupa simples e adequada para cada momento da jornada.

22 Não consumas nem introduzas bebidas alcoólicas, nem drogas nem aparelhos nem instrumentos musicais. Já certos lugares em que é está permitido fumar nos momentos de descanso ou tempo livre.

23. Não discutas. A discussão impede a ti a e aos demais praticar a Via. Se insistires na discussão deverás ir-te.

24. Aquela pessoa que não siga as Regras deste mosteiro será convidado a ir-se embora.

25. Não perturbes a prática dos demais convidando estranhos em momentos fora do fixados. Tanto os residentes como os visitantes devem respeitar escrupulosamente os horários do mosteiro.

26 Pratica zazen na sala de meditação e ouve atentamente os ensinamentos dados pelo mestre ou por alguém autorizado.

27. Observa exatamente o ritmo, os tempos e os lugares oportunos. Põe atenção na forma adequada de utilizar cada momento.

28. Tem o máximo respeito pela almofada de meditação (zafu) e com as tigelas do Buda (oriyoki). Cuida de não deixá-los cair..

29. A cozinha é um dos três lugares especialmente sagrados neste mosteiro. Está completamente proibida a entrada nela sem autorização do tenzo (chefe de cozinha) ou do responsável geral. Se estiveres a trabalhar na cozinha, guarda silêncio. Não mantenhas conversas vulgares e inúteis. Concentra-te somente na preparação dos alimentos.

30. Os duches, os lavatórios e as sanitas são também lugares sagrados. O silêncio deve ser protegido aqui também. Sê cuidadoso e atento. Não esqueças os teus objetos de asseio pessoal nem os deixes em qualquer lugar à vista de todos. O espírito de gasshô deve permanecer nestes santos lugares.

31. Durante todo o tempo que estejas aqui estuda e pratica aprazível e livremente a Via do Buda.

32. Existe uma maneira de fazer concreta para cada circunstância e momento da vida quotidiana neste mosteiro. Se fores novo, pergunta a alguém mais antigo. Não permaneças na ignorância.

33. Não esqueças optar sempre pela Alegria, pela Harmonia, pela Paz e pela Felicidade na tua própria mente.

Feliz estadia na Luz Serena!

Estas regras são diretamente inspiradas pelo Jundo-shiki, ou ‘Regulamentos para a sala das Nuvens Viageiras’ do mestre Eihei Dôgen (s. XIII). Traduzidas por Dokushõ Villalba.