Comunidad Budista Sotozen

Imagen relacionada

Primeiros passos na Via do Zen

A motivação
Em primeiro lugar deves perguntar-te que é o que procuras na prática do Zen. Tenho aqui uma história:
 
"Um homem tinha um posto de frutos secos, A gente que queria frutos secos aproximava-se ao seu posto e este homem proporcionava-lhos. Mas, às vezes, chegava gente distraída que lhe pedia tomates ou carne, e este homem lhe dizia: não, aqui temos só frutos secos. A verdura e a carne é aí ao lado."
 
Neste centro Zen estuda-se e pratica-se o ensinamento transmitido pelos Budas e Ancestrais através da linhagem correta da Transmissão Budista Zen, cuja essência fundamental é a de descobrir e vivenciar a verdadeira natureza da nossa existência. O coração desta prática é a meditação zazen.
 
Quer isto dizer que para fazer zazen num dojo há que "se fazer budista"? Não. Isto quer dizer que neste centro Zen se pratica zazen seguindo o ensinamento do Budismo Zen, mas o centro está aberto a todas as pessoas que queiram fazer zazen respeitando as regras e a atmosfera deste lugar.
 
A Via do Zen é como um grande oceano de água doce que pode proporcionar água a todos aqueles que a precisarem. A quantidade de água que se recebe depende da necessidade e do recipiente com o que se vá: um grande recipiente poderá receber muita água, um recipiente pequeno receberá pouca água... O recipiente é a atitude com que se pratica e a profundidade do que se procura. A experiência fez-nos ver que existem diferentes motivações à hora de ir à prática do Zen.
 
Estão aqueles que vão por curiosidade, sem grande interesse e sem noções claras do que é o Zen.
 
Estão aqueles que desejam aprender uma técnica para se relaxar, para "estar melhor" sem refletir sobre as causas do seu mal-estar e da sua tensão.
 
Estão aqueles que o que desejam é integrar-se nalgum grupo, ter amigos, conhecer gente.
 
Estão aqueles que não se sentem bem com eles mesmos e sentem a necessidade de fazer algo, (de satisfazer a sua insatisfação, de ser felizes) mas não têm uma direção concreta e não refletiram suficientemente sobre o que querem e o que não querem.
 
Estão aqueles que leram livros sobre o Zen, que se sentem intelectualmente identificados com o ensinamento do Zen e desejam "praticar" e vão à prática com um bagagem pesada de preconceitos intelectuais, de ideias preconcebidas, de categorias e conceitos.
 
Estão aqueles que chegam a um centro sem ter nem a mais mínima ideia do que é o Zen e, no entanto, encontram imediatamente que o Zen é o seu caminho.
 
Estão aqueles que, tenham ou não lido livros sobre o Zen, o que procuram é uma via espiritual através da qual operar uma profunda revolução interior, uma transformação pessoal que lhes permita viver de acordo com uma verdade que eles mesmos sentem vagamente no seu interior mas que não sabem como desenvolver ou expressar.
 
Estão aqueles que o que procuram é a Via do Zen e só a Via do Zen, tendo-o muito claro desde o princípio.
 
Cada pessoa é diferente, cada uma tem a sua própria atitude, mas as citadas anteriormente são os estereótipos mais comuns. Se a motivação não for correta, é impossível continuar praticando zazen durante longo tempo. Muitas pessoas vão ao Zen como poderiam ir a qualquer outro centro espiritual, ou a centros de meditações variadas, ou a centros de psicoterapia, ou a clubes e associações cívicas, ou a centros de relaxação, masagem e técnicas de bem-estar. São pessoas que, ao não terem definida a sua procura, tal estão hoje aqui como amanhã noutro lugar. Além disso, com a prática de zazen têm a impressão de «não tirar nada de proveito». A própria atitude ou motivação é, pois, um obstáculo que impede perseverar e entrar no coração do Zen.
 
Outras pessoas, no entanto, recebem uma impressão muito boa das suas primeiras sessões de zazen. Percebem algo na atmosfera do centro que lhes atrai enormemente, sentem-se identificadas em linhas gerais com o silêncio de zazen e com o ensinamento que recebe. Estas pessoas decidem continuar a praticar e ir regularmente ao centro para praticar zazen, embora ainda não possam exprimir muito bem por que gostam da prática do Zen.
 
Os obstáculos
 
Não obstante, apesar desta atração pelo Zen, é usual que ao começo da prática algumas pessoas experimentem certas rejeições com alguns aspetos da prática do Zen. Aparecem os obstáculos.  Superar estes obstáculos depende da atitude que tome o praticante com eles. De facto, estes obstáculos não são exteriores ou objetivos, mas são profundamente subjetivos e correspondem a preconceitos culturais, intelectuais, emocionais e corporais do próprio praticante.
 
Estes obstáculos são variados e diversos, mas poderiam ser sintetizados em três grupos:
 
1. Obstáculos corporais
 
2. Obstáculos intelectuais
 
3. Obstáculos emocionais
 
Obstáculos corporais
 
O primeiro que a maioria dos principiantes constatam é a dificuldade inicial de postura de zazen. Às vezes é até impossível tomar a postura de zazen, e embora seja possível, permanecer imóvel em zazen durante uma sessão de trinta minutos torna-se numa experiência dolorosa e quase traumática.
 
A dor é uma das primeiras barreiras que nos encontramos quando começamos a praticar zazen. Demos de frente com a dor! Há que dizer que a dor é o melhor conselheiro espiritual, o melhor amigo. A dor é um sintoma do nosso desequilíbrio, uma luz vermelha que se acende e nos diz: "algo não vai bem". É como uma coluna de fumaça que nos indica que nalguma parte há um fogo. Seguindo a coluna de fumaça podemos chegar até à sua origem, o fogo, e apagá-lo. Portanto, não deves desanimar-te pela dor. Zazen não é uma prática ascética nem mortificadora. Zazen não é em si doloroso. Mas às vezes, sobretudo ao princípio, a dor aparece.
 
Por que?
 
Por uma parte, há uma realidade fisiológica: os nossos tendões, os nossos músculos, a nossa estrutura corporal não está acostumada à postura de zazen. Zazen é um treinamento, uma superação de um mesmo. Há um trabalho corporal e este trabalho produz às vezes sensações dolorosas. Em qualquer desporto acontece o mesmo. Os nossos velhos hábitos corporais resistem-se a desaparecer. Mas com o tempo e a prática, o nosso corpo adapta-se à postura de zazen e instala-se confortavelmente nela.
 
Por outra parte, na dor há um forte componente psicológico e mental. Dói-me a mim. O "eu" é quem mais sofre. Quanto mais forte seja a consciência de ego, mais insuportável será a dor. Quando a consciência ególatra começa a se acalmar e a se dissolver a dor deixa de ser uma ameaça séria e se transforma numa simples sensação mais.
 
As mentes agitadas sofrem mais que as mentes serenas. Comprovou-se que quando o cérebro alcança um estado de profunda quietude e serenidade começa a segregar uma substância chamada endorfina, uma de cujas funções principais é dissolver as sensações agudas de dor.
 
Controlar a nossa mente, conduzi-la para estados de paz e serenidade, treinar o nosso corpo, harmonizar a respiração é o caminho para superar a barreira da dor. A paciência é fundamental.
 
Quando aparecem as sensações dolorosas, aqueles que vão ao zazen como técnica de relaxação ou de bem-estar, abandonam em seguida. Inclusive se se está realmente interessado pelo Zen, a dificuldade da postura faz que pense em desistir.
 
Na realidade, todo mundo pode-se sentar em zazen, não sendo que tenha alguma lesão física importante, se se munir da perseverança e da determinação necessária.
 
Zazen é também um treinamento físico e corporal. Trata-se de reestruturar a nossa arquitetura muscular, de modelar o nosso corpo com o fim de torná-lo apto para uma prática de meditação profunda como é zazen. O nosso corpo é um ser vivo e portanto adaptável e dúctil. É normal que, acostumados a muitos hábitos corporais erróneos, a postura de zazen crie dificuldades iniciais. Mas estas dificuldades vão desaparecendo na medida em que perseveramos e nos trabalhamos. Não vale dizer, como desculpa, que a postura de zazen só serve para os japoneses, os chineses e os indianos, já que eles estão acostumados desde pequenos a ela. É necessário saber que tantos os chineses, os japoneses e os índios que nunca praticaram zazen têm os mesmos problemas que os ocidentais à hora de iniciar na prática. Também há que saber que em ocidente são milhares as pessoas que praticam zazen regularmente e que fizeram de zazen um costume habitual nas suas vidas.
 
O único que se requer é perseverança e, nos casos mais difíceis, certos exercícios de alongamento antes de se sentar em zazen.
 
Outro obstáculo de índole corporal que surge é o apego às formas. Nos centros zen ensinam-se certos comportamentos corporais tais como gasshô (saudação com as palmas das mãos juntas), sasshu (as mãos recolhidas diante do peito para caminhar e permanecer imóvel na posição erguida), sampai (prostração), etc. num centro está estipulada também a forma de entrar, de sair, de caminhar, de se sentar. Depois de zazen costuma-se realizar uma cerimónia. Algumas pessoas têm muita dificuldade à hora de praticar este comportamento corporal porque estão muito apegadas às formas corporais, não às que se ensinam no centro mas às que estão habituadas. E no centro, ao realizar com o seu corpo gestos e comportamentos incomuns, sentem rejeição. Esta rejeição com o comportamento corporal da sala de meditação é a outra cara da moeda do apego que sentem com os seus comportamentos habituais.
Algumas pessoas não podem vencer a sua própria fixação, o qual lhes provoca um sentimento de ridículo e uma rejeição tão grandes que terminam por abandonar a sala de meditação. O obstáculo não foi vencido.
A única maneira de vencê-lo é aceitando sem preconceitos as novas formas, adaptar-se a elas,  experimentar "de dentro" tornando o corpo flexível para aprender novas pautas de comportamento. Quando o comportamento na sala de meditação é praticado durante alguns meses, começa-se a descobrir o seu sentido profundo, não intelectual, sem necessidade de longas explicações verbais. Não há que esquecer nunca que a Via do Zen não é uma teoria mas uma prática, isto é, uma experiência.
A prática do Zen com todo o corpo provoca um despertar da nossa consciência corporal, uma reestruturação dos nossos hábitos corporais.
 
Obstáculos intelectuais
 
À medida que se pratica zazen vai-se entrando em contacto com o ensinamento do Zen, com os princípios essenciais ensinados pelos Budas e Patriarcas. Estes ensinamentos vão destinadas a ajudar-nos a tomar uma perspetiva justa da qual conceber a nossa própria prática. São uma ajuda para compreender a nós mesmos. No entanto, pode que os nossos próprios pontos de vista não coincidam com este ensinamento, ou que alguns aspetos deste ensinamento nos pareçam tão estranhos e alheios ao que normalmente pensámos que apareça na nossa mente uma rejeição intelectual.
 
A Via do Zen não é uma teoria nem uma ideologia mas uma prática existencial, isto é, uma experiência. O Zen segue a via da experiência. O ensinamento dos Budas e Patriarcas tem como finalidade conduzir à experiência da nossa verdadeira natureza original. Tem pois um carácter eminentemente prático. Não se trata de memorizar princípios, dogmas. Não se trata de ideologizar-se, nem de doutrinar-se, mas de compreender como devemos conduzir a nossa própria prática.
 
Neste processo, é importante ter em conta os seguintes pontos:
 
Em primeiro lugar devemos ouvir o ensinamento: que é o que há que praticar, como, com que atitude mental, corporal e emocional. Isto é, receber o ensinamento de um verdadeiro mestre Zen da Transmissão, trabalhar-se a si mesmo com o fim de se tornar um recipiente apto para receber este ensinamento. Ouvir muito, quanto mais melhor. Quanta mais ensinamento ouvirmos, mais exatamente poderemos guiar a nossa prática. Para ouvir o ensinamento é necessário estar ao lado de um mestre, pois não se trata de receber somente uns princípios teóricos e objetivos, mas de um "sentir", de uma intuição, de uma comunicação íntima de mestre a discípulo. O praticante deve trabalhar a seu recetividade intelectual e emocional a fim de poder ressoar com a vibração emitida pelo mestre. Para isso, é fundamental silenciar, embora só seja momentaneamente, os próprios pontos de vista pessoais, abandonar as ideias preconcebidas, e se tornar intelectualmente recetivos aos ensinamentos que se recebem.
 
Após ter ouvido um ensinamento, devemos assegurar-nosde que a compreendemos corretamente, sem acrescentar categorias pessoais. Para isso devemos refletir uma e outra vez sobre os ensinamentos recebidos. Se não compreendemos algum ponto ou não estamos certos do ter compreendido bem, devemos comunicar as nossas dúvidas ao mestre, bem durante uma entrevista pessoal, bem durante um mondo (colóquio aberto). Logo que estivermos seguros de ter compreendido corretamente, devemos refletir sobre se este ensinamento é a que nos convém, o que procuramos, o que precisamos. No caso de não nos convir, o melhor é simplesmente não praticar e abandonar o Zen. Mas se sentimos que este ensinamento é a que precisamos, então devemos passar, sem mais preâmbulo, à prática.
 
O terceiro passo é praticar o que compreendemos. Depois do entendimento intelectual é imprescindível a prática total com o corpo e com a mente. Também pode acontecer nalguns casos que não vejamos a necessidade de praticar alguma coisa, embora o seu sentido intelectual esteja muito claro e embora receba muitas explicações do mestre.
 
Que devemos fazer nestes casos? Depende da confiança que cada um tenha no mestre e no ensinamento dos Budas e Patriarcas. Se se tiver confiança, continuar-se-á a prática, embora momentaneamente não se tenha uma perspetiva clara dela. Caso contrário, a prática em questão será abandonada. Acontece como com os sinais de trânsito que indicam a direção de tal ou qual cidade e a distância que nos separa dela. Quando um sinal de tráfico nos indica a direção de uma cidade, vemos o sinal mas não a cidade. Como podemos estar seguros de que essa cidade se encontra nessa direção e a essa distância se nunca viajámos até ela? Não podemos estar certos, mas confiamos nas pessoas que colocaram aí esses sinais para nos ajudar. O mesmo acontece na Via do Zen. Muitas vezes não podemos vislumbrar o significado profundo de um ensinamento ou de uma atitude do mestre, mas se tivermos confiança nele e seguimos as suas indicações, nós mesmos poderemos com o tempo compreender o que se nos quer dizer. Até hoje, nenhuma pessoa que praticou o que os Budas e Ancestrais ensinaram, deixou de experimentar o que os Budas e Ancestrais experimentaram.
 
A atitude justa consiste pois em alargar cada vez mais as fronteiras do nosso entendimento Intelectual da Via do Zen e às vezes isto só pode acontecer mediante um salto instantâneo para além destas fronteiras. Como se diz no Zen:
 
"Quando chegues à beira de um precipício de mil metros, dá um passo à frente."
 
Os obstáculos intelectuais só podem ser pois dissolvidos na medida em que nos libertamos das nossas categorias mentais rígidas, dos nossos preconceitos, dos nossos velhos conceitos.
Não se trata de superar obstáculos exteriores mas de nos superar a nós mesmos.
 
Obstáculos emocionais
 
Toda a categoria mental, conceito, noção ou preconceito vai sempre acompanhada de uma carga emocional que se polariza na dualidade apego/rejeição, amor/odio. Geral e inconscientemente sente-se apego para o que já se conhece, e uma rejeição primeira ao novo, ao que pode convulsionar o nosso mundo familiar.
 
Na prática do Zen, devemos observar e fazer-nos conscientes deste processo mental-emocional, a fim de não cair prisioneiros dele.
 
A Via do Zen não pode ser experimentada através da dualidade emocional atração/rejeição, apetite/repulsão. Devemos ir para além e receber o ensinamento do Zen o mais simples e singelamente que possamos, evitando que as nossas categorias emocionais atuem de filtro deste ensinamento.
 
Com o tempo e com uma prática de zazen perseverante, pouco a pouco, a nossa atividade emocional ir-se-á acalmando. De um ponto de vista mais sereno, poderemos ver com maior lucidez as perturbações que causam na nossa mente esta atividade emocional incontrolada que nos faz odiar, recusar, apegar-nos teimosamente, encolerizar-nos, etc. Não se trata de cultivar uma frialdade desumana, mas de pôr ordem e harmonia nos nossos impulsos emocionais, compreendendo a sua parcialidade e relativizando-os.
 
A atitude justa
 
Os Budas, Ancestrais e Mestres Zen da Transmissão ensinaram-nos que para superar os primeiros obstáculos e poder continuar a aprofundar na Via do Zen é necessário cultivar uma atitude justa da consciência. Esta atitude justa pode ser caracterizada pelos seguintes pontos:
 
Mushotoku
 
É um termo japonês que quer dizer "nenhum proveito". Esta é o ensinamento fundamental no Zen. Não devemos esperar obter benefícios pessoais da prática. Não devemos procurar fins concretos quando praticamos o Dharma do Buda. Não devemos praticar com uma meta ególatra. Por que praticar então, para quê? Por nada especial, para nada. Praticamos o Dharma do Buda porque achamos que é o melhor que podemos fazer. Nada mais. A chuva cai, o sol brilha, o trigo germina. A chuva não cai para regar os campos. Cai porque a sua natureza é cair. O sol não brilha para fazer germinar o trigo. Brilha porque a sua natureza é brilhar. O trigo não germina para alimentar aos homens. Germina porque a sua natureza é germinar. Da mesma maneira, devemos praticar e estudar o Dharma do Buda, porque a nossa natureza impulsiona-nos a conhecer-nos e a compreender a cada vez mais profundamente o facto da nossa existência neste mundo. Com certeza que do nosso prática-estudo da Via surgirão muitos benefícios e recompensas, mas não devemos praticar procurando esses benefícios e recompensas. Simplesmente devemos concentrar-nos aqui e agora sobre uma prática justa. Os frutos virão por si mesmos.
 
Shikantaza
 
É outra expressão Zen japonesa muito importante e está intimamente relacionada com MUSHOTOKU. Quer dizer «sentar-se, somente sentar-se». Quando nos sentamos em zazen, não nos sentamos para alcançar algum fim, não esperamos algo especial. Simplesmente nos sentamo com a mesma atitude que a da chuva ao cair, ou a do sol ao brilhar, ou a do trigo ao germinar. Concentramo-nos unicamente no facto de nos sentar corretamente, com uma atitude corporal correta, com uma respiração correta e com uma atitude de espírito correta. Não devemos pensar: "Faço zazen para iluminar-me, ou para ser melhor, ou para adquirir poderes mágicos... Zazen é zazen, é o princípio e o final, é um todo completo em si mesmo. Zazen não é uma técnica de meditação utilizada para alcançar um fim. Se não tivermos um fim, zazen mesmo transforma-se no fim. Só então podemos começar a perceber a verdadeira dimensão de zazen. SHIKANTAZA refere-se à prática da postura sedente, a zazen. Mas esta atitude devemo-la estender a todas as ações da nossa vida. No Zen não trabalhamos para ganhar um salário, nem comemos para isto nem para aquilo, não dormimos para estar mais descansados ao dia seguinte, não vivemos para ... Trabalhar é em si o princípio e o fim de uma ação, é um todo completo independente dos seus frutos. Quando comemos, comemos. Não comemos para nada especial. Comemos porque na nossa natureza está o facto de comer. Quando dormimos, dormimos. Não dormimos para algo em especial. Quando temos sonho, dormimos, é tudo. Para que vivemos, qual é o sentido da vida? O Zen responde: O sentido da vida é viver. Vivemos para viver. Isto quer dizer que o momento presente não é uma estação de passagem para o comboio do tempo que vai do passado ao futuro. O presente é o presente, um tempo único e completo em si mesmo. Portanto, o que o Zen nos ensina é a viver plenamente o instante presente e descobrir nele a infinidade do tempo, ou o não-tempo. Aliás, quando estamos a fazer alguma cousa (zazen, trabalho, comida, dormir) devemo-nos concentrar em fazer o que estamos a fazer, sem pensar nas recompensas da nossa ação.
 
Não é possível praticar o Zen com uma mentalidade mercantilista. Alguns dizem: "Bem. Vou esforçar-me em fazer zazen, vou ir ao centro, vou estudar e praticar a Via. E de tudo isto espero obter grandes benefícios". Com esta atitude não é possível avançar. Afinal desmoralizamo-nos porque não se obtém nada tangível nem quantificável e abandonamos a prática dizendo: "Zazen não serve para nada. É uma perda de tempo. Melhor dedico-me a outra coisa mais gratificante." Esta atitude atua precisamente de bloqueio para que apareça o verdadeiro zazen. Quando não se espera nada, aparece tudo. Esperar é desesperar. Quando se abandonam as expectativas ególatras, surgem as verdadeiras recompensas. Shíkantaza é sentar-se, simplesmente sentar-se sem esperar nada a mudança.
 
Hishiryo é a maneira justa de pensar durante zazen. Em que há que pensar durante zazen? Há que pensar ou não há que pensar durante zazen? Estas são algumas das perguntas que muitos principiantes se propõem. Alguns acham que zazen é "não-pensar", que há que se combinar com a mente "em branco". Outros aproveitam zazen para pensar nas suas coisas, nos seus problemas, nos seus projetos. Outros acham que a meditação zazen é criar pensamentos criativos, ou pensamentos positivos, ou qualquer outro tipo de pensamento. Zazen não é nem uma coisa nem outra. Durante zazen devemos "pensar sem pensar", não pensar pensando, pensar no fundo do não-pensamento, não-pensar no fundo do pensamento. O que significa isto? Tenho aqui as formas de pensar mais usuais:
 
Ir de pensamento em pensamento é pensar.
 
Ir de não-pensamento em não-pensamento é não pensar.
 
Durante zazen, o processo é o seguinte:
 
Ir de pensamento em não-pensamento é pensar sem pensar.
 
Ir de não-pensamento em pensamento é não pensar pensando.
 
Esta é a maneira justa de pensar durante zazen.
 
Na ação de pensar produz-se um contínuo mental formado pelo encadeamento ininterrompido de pensamentos. Suponhamos que cada ponto é um pensamento e a linha de pontos o contínuo mental:
(.......................................................)
 
Isto significa que a atenção está totalmente focalizada e presa pelos incessantes pensamentos que aparecem na mente. Às vezes queríamos deixar de pensar, mas não podemos, não sabemos como. Os pensamentos têm capturada a atenção. Isto provoca patologias mentais tais como neuroses e obsessão. A pessoa sente-se presa no círculo vicioso do seu próprio pensamento.
 
Durante zazen, ao dirigir a atenção sobre pontos importantes da postura corporal e sobre a respiração, a consciência liberta-se da tirania dos pensamentos obsessivos e neuróticos. Através do controlo da atenção, aprende-se a desprender-se dos pensamentos inoportunos. Na medida em que nos vamos libertando da cada vez mais pensamentos, o "contínuo" mental começa a se quebrar e a deixar entrever espaços vagos, aliás, estados de não-pensamento. Seguindo com o exemplo dos pontos:
(...... ......... ......... ............ ...................)
 
Os pontos são pensamentos. O espaço são vazios, estados de não- pensamentos.
 
Não obstante, no Zen não se pretende alcançar um estado absoluto de não-pensamento. Pensar é uma atividade natural do ser humano, tal como comer, dormir, falar. Comer muito, falar muito, dormir muito, pensar muito é um extremo que deve ser evitado. Não comer nada, não falar nada, não dormir nada, não pensar nada é outro extremo que também deve ser evitaado. Se não comermos nem dormirmos nada, o nosso corpo se debilitará, murchar-se-á e terminará por morrer. Se não pensarmos nada, a nossa consciência adormecerá, cairá numa espécie de depressão emocional, intelectual e espiritual. Portanto, o que o Zen nos ensina é a via do equilíbrio. Isto é hishiryo: pensar sem pensar, não pensar pensando. As nuvens rosáceas flutuam no céu azul. As nuvens são como pensamentos. O céu azul é o estado de não-pensamento. Mais que pensar, deixar que os pensamentos se pensem.
 
Não há um "eu" pensante, há pensamentos que vêm e que vão como nuvens no céu. As nuvens não pertencem ao espantalhos, tanto lhe dá virem ou irem ou que o céu esteja nublado ou sem nuvens. O espantalho não tem consciência de “eu " nem “de meu ". Por isso nem as nuvens nem a ausência de nuvens o incomodam. Durante zazen devemos ser parecidos com espantalhos.
 
O mestre zen
 
O mestre zen é o amigo espiritual que te ajuda a descobrir o essencial em ti mesmo, que te guia pelos meandros da tua própria mente e te ensina a plantar na tua consciência as sementes de uma realização espiritual que te permita descobrir por ti mesmo a tua autêntica natureza.
 
Aqui, no Japão, na China, na Índia, nos EUA e na Austrália, em todas partes aqueles que se querem estudar a si mesmos seguindo a Via do Zen sempre procuraram um mestre, um amigo espiritual. Um mestre Zen é como um guia de montanha que conhece a rota porque tem subido e descido muitas vezes por ela. Poupa-te tempo, ajuda-te nos momentos de desalento e avisa-te das passagens difíceis.
 
Estudar com um mestre Zen não significa renegar da própria responsabilidade na prática da Via. O estudante deve praticar por ele mesmo, seguindo os conselhos do mestre. O mestre é o dedo que assinala a lua, mas é o estudante quem deve olhar a lua. O estudante deve experimentar o ensinamento do mestre, caso contrário este ensinamento torna-se inútil.
 
A relação com o mestre podemos focá-la de dois pontos de vista:
 
a) Como simples praticante, aliás, sem criar fortes vínculos pessoais com ele, ouvindo os seus ensinamentos e conselhos e tentando-o seguir como quando se ouve um professor de universidade. O estudante já não espera um ensinamento objetivo, a técnica, o método de zazen, os princípios do Budismo Zen. Ao não ter criado um forte vínculo pessoal com o mestre, o estudante não corrobora o seu entendimento com o entendimento do mestre e está sujeito à sua própria interpretação. Isto é como quando um homem e uma mulher iniciam uma relação informal, sem compromisso, sem regras.
 
b) Como praticante-discípulo. Existe um ato íntimo no qual o praticante solicita ao mestre ser aceite como discípulo. A partir de aqui a relação começa a tornar-se mais profunda. O estudante não espera já um ensinamento teórico mas uma educação plena das suas potencialidades emocionais, intelectuais existenciais, etc. A relação mestre-discípulo torna-se bem mais íntima, mais profunda, mais comprometida. O discípulo aceita que a mestre introduza os dedos nas suas tripas.
 
Existem regras de bom fazer, normas de comportamento na relação mestre-discípulo. O mestre deixa de ser um professor de Zen, o seu ensinamento não se limita já aos momentos da prática na sala de meditação, senão que continua em todas as circunstâncias da vida quotidiana: na rua, no bar, na mesa, no trabalho, no descanso, etc.
 
O importante, quando se quer praticar com a atitude de discípulo, é cultivar a recetividade para o mestre e permanecer ao seu lado o maior tempo possível, praticando, trabalhando, rindo, chorando com ele. Desta maneira, o espírito do discípulo impregna-se naturalmente, inconscientemente do espírito do mestre; ambos transformam-se em dois copos comunicantes. Se entrarmos numa habitação impregnada de aroma de rosa, a nossa roupa impregnar-se-á também sem saber como.
 
No Zen um verdadeiro mestre é aquele que recebeu a Transmissão do Dharma de outro verdadeiro mestre Zen quem, por sua vez, também a recebeu de outro verdadeiro mestre Zen, e assim, remontando até chegar ao Buda Sakyamuni. Por conseguinte não é um mesmo quem se auto-proclama "mestre Zen".
 
A Comunidade Budista Soto Zen tem como mestre no Dharma ao seu fundador Dokushó Villalba, monge Zen ordenado pelo mestre Taisen Deshimaru Roshi em 1978. Recebeu a Transmissão do Dharma do Venerável Mestre Shuyu Narita Roshi e atualmente é o único mestre Zen espanhol reconhecido pelas autoridades da escola Soto Zen japonesa.
 
Praticando como se ensinou até agora, pode-se progredir rapidamente na Via do Zen. Pouco a pouco, impercetivelmente, uma nova personalidade irá nascendo. Muitos dos nossos hábitos corporais, mentais e emocionais ter-se-ão transformado e, pelo geral, experimenta-se um verdadeiro renascer. Atrás ficou a atitude desconfiada, rígida, medrosa e confusa dos nossos primeiros dias de prática.
 
A prática de zazen e o ensinamento do mestre começam a abrir-nos o verdadeiro mundo dos Budas, uma nova dimensão da nossa existência, uma nova forma mais satisfatória de ver a nós mesmos, de ver o mundo e de nos relacionar com ele. Podemos sentir-nos inclusive eufóricos depois da superação dos primeiros obstáculos. Atrás vai ficando o velho eu ilusório e cada vez sentimos mais a presença de um novo eu mais real, mais autêntico, mais pleno. É neste momento quando alguns praticantes sentem uma espécie de vertigem, a vertigem da dúvida.
 
A dúvida
 
Apesar dos resultados satisfatórios obtidos com a prática de zazen, alguns praticantes sentem que se estão a afastar "demasiado" do seu mundo familiar, ao que, em algum remoto local do seu inconsciente, permanecem apegados.
 
Além disso, nestes momentos, começamos a nos dar conta de que zazen e a Via do Zen é bem mais que uma técnica de meditação ou de relaxação. Começmosa a intuir a verdadeira profundidade da Via do Zen, isto é, da sua própria existência. E esta profundidade dá medo, o medo do pinto a sair da casca. São momentos de incerteza e de dúvida. Tentar regressar ao mundo de sempre? Seguir adiante?
 
 
A visão do Dharma
 
Esta dúvida é natural e inclusive benéfica se se viver com uma atitude mental justa. Está dúvida é a manifestação de que se está a produzir a visão do Dharma (da Realidade que nos mostra o Zen) e que esta visão está a ser comparada com a visão ordinária que tínhamos tido até então.
 
A visão do Dharma é a perceção intuitiva dos três traços fundamentais da nossa existência fenomenal. A saber:
 
1º Vivemos num mundo frágil e impermanente.
 
Nada dura, nada permanece. Nem a felicidade nem a desgraça, nem o bem nem o mal, nem o eu nem os demais. Começamos a compreender que não podemos encontrar uma satisfação duradoura agarrando-nos a coisas que, pela sua própria natureza, tendem a desaparecer. Os amigos voltam-se inimigos, o corpo doente, a riqueza é causa de tantos mal-estares como a pobreza, o conforto material termina por nos asfixiar, os nossos familiares envelhecem e morrem. As ideologias expandem-se como o fogo para, ato seguido, sucumbir estrondosamente.  Despertar-se à impermanência do mundo em que vivemos é despertar à constatação de que nós também teremos que desaparecer completamente da face do planeta. Ante esta perspetiva, o desejo de honras, de reputação, de poder, de conforto, de prazeres materiais, perde grande parte da sua força. O que antes nos motivava tanto, as coisas pelas que lutávamos com tanto afã começam a perder o seu sentido. A constatação real da impermanência provoca uma crise do ego, uma reestruturação do nosso ser-estar no mundo porque começamos a dar-nos conta de que não somos o que achávamos ser, de que temos estado correndo detrás de fantasmas, de sombras, de miragens. Começa a ruir o que achávamos ser. O eu abala.
 
2º Surgem perguntas: Quem sou eu, que é ISTO?
 
Damo-nos conta de que o eu é uma entidade indefinível, inefável, inexistente. Não há um eu, há milhares de eu. Ou bem, o eu não é uma entidade fixa e imóvel, não é uma personalidade monolítica, mas um processo, uma corrente. Um processo em que continuamente estão a morrer velhos eu e nascendo novos eu. Já não nos sentimos exclusivamente o pai, nem a mãe, nem o filho, nem o irmão, nem o esposo, nem a esposa, nem o professor, nem o aluno, nem a boa pessoa nem a má pessoa, nem o inteligente nem o desajeitado, nem o governante nem o governado, nem o padrão nem o operário. Deixamos de identificar-nos exclusivamente com as funções pontuais que desempenhamos na vida social, familiar e profissional. Começamos a compreender que a verdadeira natureza da nossa existência transcende com muito os papéis ou as "personalidades" que interpretamos diariamente. Surge inevitavelmente a pergunta: "Se eu não sou exclusivamente as personagens que interpreto na vida diária, quem sou eu? Que é o Verdadeiro Eu que inclui e transcende os infinitos eu que aparecem e desaparecem na corrente da minha vida? Qual é a verdadeira natureza da minha existência?"
 
3º Este pode ser o ponto de partida para uma prática espiritual realmente profunda e veraz.
 
Experimentando a evidência dos dois aspetos citados, chegamos a compreender um pouco melhor a causa fundamental do nosso sofrimento e do sofrimento dos seres viventes. Sofremos porque nos apegamos a uma ilusão, a uma sombra irreal. A ilusão é a manifestação da ignorância fundamental da mente humana. A ilusão é uma perceção errónea, incompleta e  deformada da Realidade. Ao não perceberem a verdadeira Realidade, os seres humanos não podem viver em harmonia com ela. Ao não viverem em harmonia com ela, surge o sofrimento. Sofremos por ignorância.
 
O sofrimento ao que se referem os Buda não se limita às sensações dolorosas, já sejam corporais, mentais ou emocionais. Refere-se antes bem, num sentido amplo, à insatisfação contínua em que vivemos os seres humanos, à ausência de tranquilidade interior, de paz interior, de serenidade, de liberdade profunda. A agitada atividade da nossa mente produz-nos sofrimento, a pobreza produz-nos sofrimento, a riqueza também. Inclusive a felicidade produz sofrimento porque quando somos felizes temos medo a deixar de o ser, apegamos-nos à felicidade. E isto é sofrimento. Vamos ali e vemos sofrimento, vamos lá e vemos sofrimento. Ficamos aqui e vemos sofrimento.
 
Este sofrimento profundo, existencial, não pode ser resolvido nem silenciado já com pequenos remédios, nem com narcóticos, senão unicamente mediante uma prática espiritual profunda e exata que nos permita aceder à outra orla do rio da vida: a visão clara da autêntica natureza original da nossa existência.
 
Eis os dois polos da dúvida: "A Via do Buda abriu-se perante mim e todos os Budas e Patriarcas  convidam-me para a percorrer. Algo em mim quer que a faça mas, por outra parte, tenho medo. Que será de mim?
 
Tenho medo a deixar de ser o que sou, ou o que acho ser, tenho medo a perder o meu mundo familiar que, embora insatisfatório, já é o que conheço, com que me identifico, em que me sento mais eu. Por outra parte, não posso voltar atrás, não posso negar a minha própria experiência na Via do Zen, nem a visão que se está a abrir caminho na minha mente."
 
Alguns pensam: "Que dirão os meus familiares e amigos se souberem que me comprometi com o Budismo Zen?"
 
A forma que a dúvida adquire nestes momentos varia segundo as pessoas, mas o certo é que aparece uma encruzilhada importante. O praticante sente-se como o protagonista desta história:
 
"Uma pessoa vai caminhando por uma planície deserta. Parece ter o tempo todo do mundo.  Para cá e lá. Olha as flores, deita-se, levanta-se. Caminha para o Norte, para o Sul. Parece não ter rumo fixo. De repente, ouve um horripilante rugido às suas costas. Volta-se e vê aterrorizado que e trata de uma besta horrível, médio leão, médio touro. A besta avança ameaçadora e ele começa a correr. Corre, corre e corre até a extenuação, mas a besta segue-lhe sempre cada vez mais perto. Corre, corre, corre e tropeça. Ao tropeçar cai por um precipício insondável, mas tem a sorte de se aferrar a uns cipós que saem da parede. Aferra-se a eles com os dentes. A besta chega à beira do precipício e ali senta a esperar. A pessoa olha para o chão e vê com horror que ali há uma enorme serpente com a boca aberta, esperando a sua queda para o devorar. Não pode subir nem descer, nem avançar nem retroceder. Mas a sua mandíbula ainda pode aguentar um pouco mais. É nesse momento quando se dá conta que sobre o cipó há dois ratos. Um branco e outro negro. O rato branco está roendo o cipó. O negro também. Os segundos estão contados. Então aparece um mestre zen em helicóptero e pergunta-lhe: "Nestes momentos que é o mais importante para ti?"
 
Que responderias tu?
 
Em caso de dúvidas, continua fazendo zazen até que a dúvida seja dissolvida. Se não a puderes dissolver, solicita uma entrevista pessoal com o mestre.
 
A dúvida é um dos obstáculos mais difíceis de superar. O momento do seu aparecimento depende de cada pessoa: nalgumas surge aos poucos dias de começar a prática, noutras ao cabo de meses, e inclusive de anos, segundo a intensidade e a profundidade da prática da cada um. A dúvida mesma pode ser de diferente intensidade. No Zen fala-se às vezes da Grande Dúvida. Esta Grande Dúvida aparece nos momentos críticos nos quais se experimenta a culminação de um processo de maturação espiritual. Esta Grande Dúvida é vivida como um doloroso traço emocional e espiritual. É como se fôssemos caminhando e, de repente, a terra se abrisse baixo os nossos pés. Atrás fica a "velha terra", diante a "nova terra", e nós em meios com o abismo sob os nossos pés. O que fazer? Para diante, para atrás? É neste momento quando aqueles que carecem da determinação suficiente e da motivação justa costumam abandonar a prática de zazen e a Via do Zen. Também estão aqueles que, sem o pensar, dão um salto intuitivo para a nova terra, para a outra beira.
 
No Zen diz-se:
 
Grande Dúvida, Grande Iluminação.
 
Pequena dúvida, pequena Iluminação.
 
Nenhuma dúvida, nenhuma Iluminação.
 
A Grande Dúvida não pode ser resolvida mediante o intelecto, mas mediante a totalidade do nosso ser existencial, para além do pensamento, através de uma reação espontânea e intuitiva.
 
 
A visão dos Três Tesouros
 
A resolução da Grande Dúvida implica a determinação de seguir a Via dos Budas e Patriarcas, de receber o seu ensinamento, de estudar e de praticar o que eles estudaram e praticaram. Implica tomar o Buda como mestre espiritual e fonte contínua de Inspiração; o Dharma como o Caminho, a Via, o ensinamento a seguir; a Sangha como a Comunidade espiritual onde desenvolver a própria aspiração espiritual.
 
Os lábios, o corpo, o coração e o espírito dizem então:
 
Veneração ao Buda.
Veneração ao Dharma.
Veneração à Sangha.
 
Para ser guiado vou ao Buda.
Possam os meus pés marchar pela Via do despertar.
 
Para ser guiado vou ao Dharma
possa o meu corpo-mente compreender o ensinamento
e obter a Grande Sabedoria Compassiva
vasta como o oceano.
 
Para ser guiado vou à Sangha.
Possamos todos viver em harmonia
para além dos apegos egoístas.
 
A esta atitude emocional e espiritual chama-se-lhe Tomar Refúgio nos Três Tesouros (Buda, Dharma, Sangha) ou entrada na Corrente, e materializa-se na Cerimónia de Tomada de Refúgio que tem lugar várias vezes ao ano no Mosteiro Luz Serena, em presença dos demais membros da Comunidade.
 
Numa árvore há flores, folhas, ramos, tronco e raízes. Na Via do Zen também. Antes de entrar na corrente só víamos as flores, as folhas e os ramos do Zen. Entramos na corrente porque damo-nos conta de que estas folhas, flores e ramos estão sustentados por um tronco, e este tronco ergue-se sobre a terra graças à força das suas raízes. Ao dar-nos conta disto surge naturalmente o desejo de entroncar-nos e de enraizar-nos na Via do Zen.
 
O Zen transforma-se na nossa Via.
 
A Via espiritual que queremos percorrer.
 
E para nos guiar no nosso percurso aparecem três estrelas:
 
O Buda, o Dharma e a Sangha.
 
Escrito por Dokushô Villalba, a 15 de junho do 1989.
Revisado e aprontado a 17 de janeiro do 2012.